Sri Lanka, cingaleses e tâmeis

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(Foto: Steve McCurry – stevemccurry.com)

Inicialmente, parece improvável que o Sri Lanka, seus partidos políticos e o grupo étnico cingalês possam despertar algum interesse em alguém. Acredite, é muito interessante.

Tendemos a imaginar que a democracia ao estilo ocidental não é facilmente copiável. Admito que também sofro dessa mesma impressão. De fato,  dois séculos de democracia liberal não são facilmente copiáveis.

Bom, vamos ao Sri Lanka.

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REPÚBLICA DEMOCRÁTICA SOCIALISTA DO SRI LANKA. Este é o nome do país. Caros leitores, repúblicas que se denominam democráticas e socialistas não são nem um pouco democráticas e, normalmente, são bem socialistas. No entanto, o nome completo da ilha mais parece um ornamento que uma realidade fixa, escrita em pedra. Socialista ou não, isso é o menos interessante do país. Vamos à história da ilha.

sri-lanka-holiday-temple-4.400x400Os primeiros a habitarem a ilha (Descartando os antigos Homo erectus do local, os Balangoda man) foram os Vedas. No século VI A.C., o povo cingalês chegou à ilha. Se antes o que predominava era a cultura hindu, dois séculos depois da chegada dos cingaleses o budismo tomou conta.

Bem mais tarde, já no século III, Os Tâmeis – povo do sul da Índia – começaram a chegar à ilha. Muitos embates, guerras e combates ocorreram, sendo a ilha governada por príncipes tâmiles por um bom tempo. Chegando ao século XII, as coisas começaram a melhorar para os cingaleses (Note que já nem falo mais nos Vedas. Não faço ideia do que aconteceu com eles), que, liderados por um rei legitimamente cingalês, derrotou os Tâmeis, unificou toda a ilha sob um só regime e invadiu a Índia e um outro pedaço de terra que seria, hoje, Myanmar, imagino. A dominação cingalesa durou mais ou menos três séculos inteiros até que, mais tarde , a ilha foi atacada pela China.

A partir desse momento, acontece muita coisa. O país fica bem conhecido e é visitado por mercadores de vários lugares; uma comunidade árabe cresce na ilha. Os portugueses, nada bobos, chegam e encontram um lugar todo dividido entre reinos rivais em guerra e, assim, assumem o controle. Mais tarde, uma parte dos cingaleses se converte ao cristianismo; ainda assim, a maioria permanece budista. Qualquer um que se opusesse aos novos colonizadores seria bem recebido e, como era de se esperar, assim ocorreu: Os Países Baixos  chegaram e tomaram a ilha.

Os neerlandeses controlavam tudo então. Perseguiram católicos e deixaram hindus, muçulmanos e budistas seguirem com suas vidas normalmente.

Mas nada dura para sempre, principalmente no Sri Lanka – antes chamado de Ceilão. A posse holandesa dura de 1640 a 1796. Será que agora o Sri Lanka seria livre? O princípio de autodeterminação dos povos não tinha muita validade naquela época. E, dessa forma, chega a Grã-Bretanha e lá fica de 1802 a 1948. A independência vem de forma pacífica em 1948.

Esse foi um resumo geral, muito simples, da história do país. O importante, agora, depois dessa explicação básica, é a política moderna do Sri Lanka. A essa altura, a briga entre cingaleses e tâmeis já chegou ao fim, correto? Erradíssimo.

Na década de 50, os tâmeis e os cingaleses (Eles ainda existem) estavam em conflito. O “Sinhala Only Act” foi aprovado pelo parlamento do Sri Lanka. O ato substituiria o inglês, língua oficial da época, pelo cingalês. Foi uma jogada política interessante. Aos olhos de qualquer alienado, parecia uma simples vontade daquele povo sofrido de se livrar das amarras do colonialismo. Por outro lado, os tâmeis, 29% da população da época, estavam com muito medo de o ato representar muito mais do que uma tentativa de libertação cultural, uma perseguição étnica interna. Um partido tâmil chamado “Partido Federal” chegou a se manifestar pacificamente contra o ato, que foi parcialmente revertido mais tarde.

Nessa época, surgiu o Sri Lanka Freedom Party, um partido centro-esquerda, adepto da social-democracia e do nacionalismo cingalês. Em 1960, Sirimavo Ratwatte Dias Bandaranaike, vira primeira ministra pelo partido e começa a adotar medidas socialistas no país.

Em 1972, o país se torna uma república.

Em 1977, o Fronte Unido (A união entre o Sri Lanka Freedom Party e outros dois partidos, um deles comunista trotskysta) é derrotado pelo partido de direita, o United National Party, liderado por J. R. Jayawardene, que se torna primeiro-ministro. Logo, uma nova constituição é criada e ocorre uma grande reforma em prol do capitalismo de mercado.

No entanto, como parece que nada é fácil no Sri Lanka, logo surge uma guerra civil. Um grupo guerrilheiro tâmil nasce para defender um Estado tâmil no norte do país:

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sl_tigersApesar de um governo conservador nos moldes ocidentais e de orientação econômica liberal, o que representaria, normalmente, uma ordem e união nacional acima de conflitos étnicos antigos, guerrilheiros tâmeis treinados pela índia iniciaram uma guerra civil, que só terminou mais de duas décadas depois, em 2009 (1983-2009). Sim, caro leitor, os rebeldes tâmeis que antes dominaram a ilha provocavam então uma guerra civil, alimentados pelo sentimento de serem, naquele momento, a minoria. De fato, os guerrilheiros separatistas chegaram a conquistar e estabelecer um Estado próprio em uma área do Sri Lanka de quase vinte e dois mil quilômetros quadrados por alguns anos. Nada é simples no Sri Lanka. O interessante disso é que todos esses atos de violência tâmil foram encorajados, de certa forma, por uma rixa de tantos séculos atrás. Tudo poderia ter sido resolvido com mais facilidade, mas o orgulho cingalês também veio à tona décadas antes.

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Hoje, o país está em paz. Ainda existe uma espécie de bipartidarismo de fato na ilha, apesar de haver mais de dois partidos.

Onde mais é possível ler sobre monges budistas, hindus, muçulmanos, cristãos e diferentes grupos étnicos em um mesmo contexto político, na mesma extensão territorial? Isso é algo que o Sri Lanka pode nos oferecer.

Não sou historiador e, por isso, é muito provável que encontrem erros no texto. Fiquem à vontade para enviar correções.


 

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