Harry Potter e a indignação seletiva

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Já acostumado às polêmicas que nascem no DF, ouço os mais diversos discursos sem me impressionar. No dia 17/04, ouvi um que, normalmente, é proferido da tribuna da Câmara dos Deputados mas que, naquele dia, foi direto do corredor central do plenário. Jair Bolsonaro (PSC-RJ), disse: 

bolsonaroNesse dia de glória para o povo, tem um homem que entrará para a história. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 1964 e agora em 2016. Pela família e inocência das crianças que o PT nunca respeitou, contra o comunismo, o Foro de São Paulo, e em memória do coronel Brilhante Ustra, o meu voto é sim.

A revolta de alguns deputados veio em seguida. A mídia começou a reportar o pequeno pronunciamento quase que imediatamente. O facebook foi inundado de fotos de supostas vítimas de Ustra. Indignação geral.

Pouco antes, ouvi o pronunciamento de Glauber Braga (PSOL – RJ):

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O que dá sustentação à sua cadeira cheira a enxofre. Eu voto por aqueles que nunca escolheram o lado fácil da história. Eu voto por Marighella, por Plínio de Arruda Sampaio, por Luis Carlos Prestes. Eu voto por Olga Benário. Eu voto por Zumbi dos Palmares. Eu voto não.

Algum tempo depois de ambos os pronunciamentos, tive a chance de ouvir Jean Wyllys se pronunciar, votar “não” à admissibilidade do impeachment e, em seguida, vestido como Harry Potter, cuspir em Jair Bolsonaro e sair correndo (atrasado para o quadribol).

Sem título

Não sendo o suficiente, ainda inventou que Bolsonaro o teria chamado de “veado”, “queima-rosca” e “boiola” e que teria tentado agarrar seu braço violentamente. O fato foi reportado por diversos jornais, como O Globo (reportagem). Não vou usar este espaço para acusar ou defender o coronel Brilhante Ustra. Vou usar este espaço para alertar o leitor de que, caso seja necessário, é de bom tom rasgar seda apenas – apenas, leitor. Apenas! – para facínoras de esquerda. Para eles, assassinatos, tortura e justiçamentos são apenas peças do quebra-cabeça da história, que há de absolve-los, claro, pois não existe julgamento moral que caiba a eles. Afinal, eles se consideram os motores da história, essenciais ao bem maior, à utopia, à própria existência de uma história. Não existe qualquer tipo de mácula, vício ou falha no caráter de um indivíduo que não seja, apenas, a de ser contrário ao movimento, a de ser “fascista”. Todo o resto é perdoável se a causa for revolucionária. Por isso vale invocar Marighella mas não vale invocar Ustra.

Diante disso, pergunto:

201114_marighellaVocê convidaria para jantar em sua casa um homem que  teve formação política no governo de um país dominado por uma ditadura sangrenta, criou um grupo responsável por sequestros e ações violentas e escreveu um manual (Leia mais) cujas ideias justificam a perversidade de psicopatas como mera atuação política?Caso resolvesse receber o convidado, estaria jantando com Carlos Marighella, militante comunista e criador da ALN. Esse pode! Tá tranquilo. Afinal, ele só sequestrou dois embaixadores, Ehrefried Von Holleben e Charles Elbrick.

Mas talvez Marighella não fosse uma boa ideia. O deputado Glauber Braga sugere Prestes como um que nunca escolheu o lado fácil da história. Creio, então, que entre um e o outro, melhor optar por dar o convite ao “cavaleiro da esperança”. Afinal, se sua filha não for uma suposta informante de 16 anos, como Elza Fernandes (Elvira Cupelo), dificilmente Prestes ordenaria a morte da menina. Você poderia jantar sossegado.

Ao ser tiete de Marighella e Prestes, não só você pode ser do grupo do deputado Glauber Braga, como evita cusparadas de Jean Wyllys. Lembre-se:

jean-wyllys-em-foto-para-a-revista-rolling-stone-1312923636427_300x300Brilhante Ustra não pode.

Che Guevara?

Pode.

 

 

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