Entrevista: O que é a União Democrática Acadêmica?

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Em um meio dominado por uma política estudantil arcaica, esses jovens rechaçam utopias e lutam por eficiência administrativa com uma boa dose de pragmatismo e valores bem definidos.

Somos estudantes espalhados pelo país, saturados da esterilidade do movimento estudantil tradicional, dominado por palavras de ordem e por radicalismos de todo tipo. Somos estudantes que não se veem representados por grupos que estacionaram num eterno maio de 1968.

Manifesto da UDA

 

Um, dois, três, oito…doze cafés expressos, em uma só mesa, no intervalo de duas horas. Doze cafés, cinco pessoas – algumas tomam mais de dois.  Esfumaçam-se dois maços de cigarro, um de Camel, outro de Lucky Strike – há divergências tabagísticas fortes, mas todos são obrigados a respirar o mesmo ar. O ambiente de redação de jornal dos anos cinquenta é o mínimo necessário para que se inicie uma conversa sobre Washington Luís, passando pelas reformas de Getúlio Vargas, chegando a Fernando Henrique e à era petista. Se alguém falar, por exemplo, “Eu gosto da presidência de Figueiredo!”, nenhum ar de espanto toma conta da mesa, que continuaria tão estável quanto já estava. Em resposta, o militarista apenas teria de ouvir um “Por que?” O questionamento vem de uma tradição do grupo: se você gosta de algo a ponto de expressar sua preferência, deve ser capaz de explicar o motivo. Se não explicar a tempo ou engasgar na resposta, alguém vai explicar por você com detalhes. Se explicar o motivo, ainda assim haverá contestação na mesa. No geral, após as explosões de ânimos, há algumas risadas  e tudo volta ao normal – lá se vão mais três cafés.

Gardin

Costumam ser assim as reuniões da União Democrática Acadêmica do Distrito Federal, movimento estudantil de destaque e com muitos fundadores na capital da república. Apesar de ser um membro fundador e já ter visto isso algumas vezes, nunca participei ativamente dos debates e pouco me reuni com os arquitetos do projeto. Pedro Saad – a quem, às vezes, me refiro como “Assad” por dislexia política -, primeiro presidente nacional do grupo, está sempre presente nas reuniões. É bem humorado, possuidor de uma ótima capacidade analítica, que contrasta com sua humildade, e só aparece com seus óculos Ray-ban Aviator Classic de lentes claras, que o fazem parecer um jovem burocrata dos anos oitenta. A realidade não poderia ser mais diferente; Saad não só se comunica em língua materna com grupos políticos estudantis de todo o mundo, como também sabe bem destrinchar temas que fariam a outros de sua idade dormir (como quase fez comigo quando falou sobre política energética no Brasil). O rapaz foi o primeiro da UDA a se aproximar de mim, há alguns anos, apresentado por Thiago Gardin, outro amigo, para falar a respeito de um projeto de movimento de juventude que estavam criando – na época achei loucura. Thiago Gardin é hoje presidente da unidade do DF da UDA. Como tal, resolveu estabelecer encontros mensais de formação política e cultural. Gardin – como é chamado – nos faz imaginar um pouco como seria Chesterton aos vinte e poucos anos, nos idos dos anos vinte do século passado. Sua feição não lembra em nada a de um inglês, mas com certeza se veste com a desatenção de um desleixado teórico político dos annés folles. No primeiro encontro, em um famoso café da cidade, o presidente abre a reunião e, sem muito demora, resume com facilidade toda a história do pensamento político moderno – uma forma de afinar o discurso do grupo. Nenhum ponto tático-operacional  é discutido, apenas estratégias e fundamentações. Partes operacionais são discutidas nos grupos de Whatsapp do movimento. Ali, naquele momento, o objetivo é enraizar a consciência do que é a UDA e de quem são seus membros. Para os novos integrantes, depreende-se do teor da reunião que, na falta de tal consciência, não se pode chegar a lugar algum. Uma reação estruturada e prudente parece ser a pauta silenciosa do encontro.

Campanha "mova-se", promovida pela UDA.

Em cada um desses momentos de discussão e análise, novos membros são apresentados. Não é exigido que falem, mas é de bom tom soltar uma frase ou duas sobre o que acham. Sempre é possível ver, além desses novos militantes, as mesmas figuras que iniciaram tudo isso anos antes. Hoje, estão em outros projetos. Ao mesmo tempo, olham de cima aquilo que criaram com o cuidado de um pai. Uma dessas pessoas é Alexandre Neves (o Neves), economista. Diante de uma plateia de libertários, leitores ávidos de Mises e Hayek, se valeria de ironias profundas para demonstrar que qualquer ser humano afeito à realidade deve e deveria ler Keynes. Como um homem que já se mostrou conservador mais de uma vez, sua defesa do economista não é pura crença, mas uma noção rara de que “liberalismo econômico” se tornou um chavão entre pessoas que não entendem o mundo ao redor delas.

Caso ainda não tenha visto, você provavelmente verá, nos próximos meses, cartazes da UDA em sua universidade. Para evitar surpresas, reuni cinco membros para responder a importantes questionamentos que eu, como membro inativo (e parte da ala da baixa burguesia boêmia de centro-direita do grupo), teria:


Se você pudesse encaixar a UDA em uma das famílias do espectro ideológico moderno, em qual seria e por que motivo?
(Pedro Saad) – A posição no espectro foi discutida na elaboração do nosso manifesto. A União Democrática Acadêmica agrega estudantes democratas cristãos, liberais e conservadores, ocupando um espectro entre o centro e centro-direita. Qualquer grupo com uma proposta de atuação na sociedade não consegue se encaixar perfeitamente em uma definição. Isso não significa, porém, falta de compromisso com a fundamentação de nossas políticas. Temos diretrizes fortes: como democratas cristãos, reconhecemos a democracia livre e constitucional como o único sistema político capaz de realizar a dignidade humana; como conservadores, temos a convicção que as mudanças sociais e políticas devem ser alcançadas por meio de melhorias sólidas e graduais em vez de levantes revolucionários. Reconhecemos os valores e bases construídos no desenvolvimento da cultura ocidental como necessários para o progresso da humanidade. Somente por meio de políticas prudentes, responsáveis fiscalmente e sustentáveis, alcançaremos de forma sólida a inclusão das minorias, a melhoria de renda dos seguimentos sociais mais populares e o pleno respeito aos direitos humanos. Esse é o fundamento da política que trará sucesso econômico e social aos brasileiros.
Qual a relação entre a UDA e grupos estudantis estrangeiros? Há alguma relação no modo organizacional?
(Pedro Saad) – Atualmente, conversamos especialmente com lideranças estudantis no Chile, Venezuela e Uruguai, e na Europa, França e Portugal. Infelizmente, há um déficit na articulação internacional de movimentos de centro-direita na América Latina. Fóruns precisam ser criados, ainda. Esses espaços são importantes para a construção de pautas, articulação de ações e troca de experiências. Inclusive para questões que, a princípio, parecem simples. Cito o exemplo da UNI (Union Nationale Inter-universitaire), associação francesa de estudantes conservadores, próximos ao partido dos ex-presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy. Após uma reunião via Skype com lideranças de ambos os grupos, trouxemos ao Brasil a ideia de colar cartazes com frases de impacto nas universidades. Dá certo lá e deu certo aqui.
Qual a perspectiva de crescimento da UDA e quais os próximos passos? Eleições da UNE estão nos horizontes da UDA ou a estratégia é mais voltada para a dominação do discurso que dos meios de ação?

(Thiago Prates – Presidente nacional) A UDA, desde seu surgimento e seguindo a lógica de nossa organização estatutária, busca formar núcleos de pessoas que concordam e que estão dispostas a propagar nosso ideal por meio de seções estaduais. Estamos presentes hoje em Brasília, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Paraná, e Tocantins, buscando ampliar ainda mais a área de atuação.
Em relação à UNE, nossa principal crítica é ao modelo que cria um monopólio da representação estudantil. Queremos discutir a liberdade associativa em detrimento dessa instituição político-partidária que a UNE se tornou, oferecendo uma alternativa qualificada no movimento estudantil.

Qual será a atuação da UDA na CPI da UNE?

(Thiago Prates – Presidente nacional) Nossa atuação em relação à CPI da UNE será levar ao ambiente universitário a importância da sua instalação e de como a UNE precisa ser investigada. Uma das principais mantenedoras do establishment do movimento estudantil é a UNE, que possui recursos infinitamente maiores, grande parte deles oriundos do Governo Federal e de entidades a ele relacionadas, desequilibrando o cenário político. Em função disso, o estudante não é ouvido na participação da formação das decisões que ela toma, atendendo apenas aos interesses dos grupos partidários que tem seu comando.

O que deve mudar no movimento estudantil para que ele realmente passe a representar o estudante brasileiro?

(Thiago Prates – Presidente nacional) É preciso ter liberdade de escolha e de associação. O atual modelo privilegia uma única instituição que se preocupa somente com a agenda imposta pelo partido dominante e massacra a representação estudantil efetiva. O movimento estudantil tem que se voltar para a qualidade da prestação do ensino, de todos os graus, para que possamos posteriormente reverter a favor da sociedade o conhecimento produzido. Inovação tecnológica, maior integração com o mercado de trabalho, fundações de apoio a pesquisa e excelência acadêmica são temas que têm de ser discutidos. Com isso, não buscamos excluir a participação da vida política do país, mas temos de ter uma mudança no foco e  não deixar que agenda imposta por Brasília domine o debate.

Como é possível garantir uma gestão eficiente na UDA e dos recursos humanos quando não há, ao contrário de outros movimentos, financiamento por parte de empresas, ONGs, institutos, governo federal, etc?

(Thiago Prates – Presidente nacional) Como foi bem falado na pergunta, nosso maior patrimônio é constituído pelos recursos humanos. O foco da UDA na formação dos seus integrantes é o diferencial que buscamos ter, pois não importa um financiamento robusto sem quadros qualificados para desempenhar as atividades. Para gerir toda essa estrutura, os meios eletrônicos são fundamentais para manter o controle e acompanhar as atividades, utilizando principalmente ferramentas que permitem a integração do grupo e o conhecimento das atividades desempenhadas, por meio do Wunderlist e da Dropbox, por exemplo.


Já dei a dica. Preste atenção .

politburo

 

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