De imperador a cidadão – A história de Pu Yi

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Pu Yi | por Develter Christian


Antes dos famosos líderes comunistas chineses Deng Xiaoping, Mao e Zhou Enlai, fundadores do PCC, e pouco antes do líder republicano Sun Yat-sen, chamado de “pai da república” e fundador do Kuomintang, um garoto de apenas dois anos foi o regente de mais de 340 milhões de súditos  (Studies on the Population of China, Volume 4 – pg.73) e o comandante em chefe de um exército  de 200.000 homens (após a formação de grupos revolucionários republicanos)  que guardavam treze milhões de km2. Seu reino durou até seus seis anos de idade. Seu nome era Pu Yi.

 

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Imagine que você, aos dois anos, é tirado de casa aos gritos de seu irmão,  colocado em uma carroça e levado embora para a cidade proibida, no centro de Pequim. Dos dois aos seis anos, Pu Yi foi criado como regente dentro de sua própria  “cidade”  de 72 hectares, morando em um palácio de 9.000 quartos, com mais de 1.500 eunucos à sua disposição.

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Pu Yi foi colocado no trono chinês no pior momento possível. Em 1911, o estado geral da China era de 268 anos de dinastia Qing, guerras seguidas, monarquia em descrédito e uma população majoritariamente rural e pobre.

Mas apenas isso não seria o suficiente para acabar com os mais de 2.000 anos de monarquia chinesa e com o reinado de Pu Yi. A tradicional organização do Estado Chinês não ruiria, como nunca ruiu, por conta de guerras e pobreza. O clímax dessa história foi alcançado graças a detalhes. Os detalhes, nesse caso, foram três:

1 – (1898) – A reforma dos 100 dias
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Após a primeira e segunda guerras do ópio, uma dura derrota na guerra sino-japonesa abalava a tradicional estrutura dinástica. No entanto, abria caminho para uma grande e esperada reforma a ser promovida pelo jovem imperador Zaitian, aos 27 anos. Pouco apoiada pela imperatriz consorte e pela elite chinesa, a tentativa de modernização da monarquia feita pelo imperador fracassou. Tratava-se de uma reforma educacional, mais abertura ao ocidente e  implementação de uma monarquia constitucional democrática, além de outros pontos importantes. Após a falha da reforma, a imperatriz consorte conseguiu manejar o afastamento de Zaitian das atividades práticas de sua regência. Ela não era exatamente contra reformas, mas especificamente contra aquelas reformas naquele momento específico. O imperador, sem força política, viveu o resto de sua vida em uma espécie de prisão domiciliar, apesar de ainda ter retido algum nível de poder institucional consigo. Parte das reformas propostas pelo imperador seriam, mais tarde, colocadas em pauta novamente , logo após o fim da rebelião dos Boxers.

2 – (1899) – A rebelião dos Boxers

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Após a invasão de Pequim e a derrota dos nacionalistas boxers, a China recebeu uma ordem de reparação de guerra a ser paga em 39 anos, totalizando mais de 69 bilhões de dólares em valores atuais (em paridade de poder de compra). Isso enfraqueceu consideravelmente a dinastia Qing. O livro Pioneers of modern China: understanding the inscrutable chinese (pg.10) possui referências diretas aos episódios.

 3 – (1902) O novo exército e Yuan Shikai

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Após a derrota na guerra sino-japonesa (1895), foi promovida uma modernização geral de certos batalhões do exército chinês, deixando-os mais fortes e adaptados ao que existia de moderno em uma infantaria daquele período. Após a reforma, o exército foi entregue a Yuan Shikai. De quase 5.000 o exército foi expandido a 7.000 soldados. Em 1911, o exército de Yuan já contava com 75.000 homens.

O levante Wuchang e a Revolução Xinhai

Os três pontos acima fizeram parte de um mesmo enredo que culminaria na inevitável criação de uma república. Seria impensável a troca de uma das mais antigas monarquias existentes por uma república presidencialista, mas foi exatamente o que aconteceu. Com o sucessivo enfraquecimento da dinastia Qing e diversos exércitos renovados nas mãos do alto oficialato insurreto, apenas uma faísca seria o suficiente para um levante – o que, de fato, ocorreu. O levante Wuchang foi a primeira reação militar aberta, interna, contra a dinastia, e representou o início do que seria a revolução Xinhai – o estabelecimento da República da China.

Sun Yat-sen e Yuan Shikai

Não havia mais saída. Yuan Shikai controlava um exército poderosíssimo. Depois de seguidos pedidos da corte, Yuan aceitou mover seu exército em defesa da dinastia. Foi nomeado primeiro-ministro e ganhou ainda mais fama na corte chinesa. Teve vitórias militares em seguida à sua nomeação. Yuan sabia, no entanto, que poderia tornar-se desnecessário e perigoso ao império assim que terminasse de derrotar os revolucionários. Por isso, começou a negociar junto aos inimigos – liderados por Sun Yat-sen – a abdicação de Pu Yi, o jovem imperador. Yuan seria o presidente interino da nova República. A partir daquele momento, a história da China se tornaria ainda mais caótica. A imperatriz Dowager Longyu lança a renúncia de Pu Yi.

De volta a Pu Yi

PU Yi, o pequeno imperador – (1908 a 1912)

Seu pai, o príncipe regente e a imperatriz Dowager Longyu tomavam conta do império e das questões relacionadas à política e à gestão da corte.

Pu Yi, o imperador sem império – (1912 a 1917)

O governo republicano foi extremamente generoso com a família imperial e Pu Yi, chegando a editar artigos favoráveis ao ex-imperador. Foram mantidos valores anuais que seriam repassados à família imperial, a garantia de continuarem morando na cidade proibida temporariamente e, em seguida, no palácio de verão,  proteção  constante de uma guarda como a que possuía antes da abdicação, além de toda a formalidade e cortesia garantidas a monarcas estrangeiros. O governo republicano estabeleceu a paz entre o passado e o presente.

 

Pu Yi, o breve – A restauração Manchu (1917)

O general Zhang Xun, um lorde da guerra, retoma Pequim após problemas com o presidente da jovem república, Li Yuanhong. Por 12 dias Pu Yi tornou-se imperador da China novamente, apoiado pelo general (01/07/1917 a 12/07/1917).  As tropas republicanas retomaram a cidade logo em seguida. Pu Yi deixa de ser imperador mais uma vez.

 

Pu Yi, um imperador decorativo (1917 a 1924)

Até 1924, após a falha de sua breve restauração como monarca, Pu Yi continuou trancado na cidade proibida. Lá, recebeu boa educação e preparo. Em 1924, os artigos de tratamento favorável do imperador Qing após sua abdicação foram revistos e Pu Yi perde seu título, tornando-se um cidadão comum. É expulso da cidade proibida pelo general Feng Yuxiang.

 

Pu Yi, um cidadão comum – (1924 a 1932)

Após sua expulsão do palácio imperial, Pu Yi passa alguns dias na casa de seu pai, o antigo príncipe regente, e um pequeno período na embaixada do Japão em Pequim. Em seguida, muda-se para Tianjin (área neutra do território chinês controlada por outros países), onde, por muito tempo, trama sua volta ao trono. Em 1931, o Japão invade a região da Manchúria.

 

Pu Yi, chefe de Estado e imperador de Manchukuo – (1934 a 1945)

Pu Yi era bem relacionado com membros do governo civil japonês e o exército Kwantung, um grupo militar que gozava de extrema autonomia e que fazia parte do exército imperial japonês. O Kwantung raramente era repreendido pelo imperador japonês, mesmo em ações independentes sem prévia autorização.

Após a invasão da Manchúria por tropas japonesas e diversos embates políticos envolvendo membros da alta hierarquia do governo japonês, Pu Yi foi colocado como Chefe de Estado do mais novo Estado  fantoche do mundo, o Manchukuo.

Pu Yi não seria mais conhecido pelo mesmo título de antes. Não poderia mais ser Imperador Xuantong, seu primeiro nome oficial como regente. Agora, Pu Yin era o Imperador Kangde de Manchukuo.

Pu Yi era o senhor de jure de 30.0000.000 de pessoas, marechal de um exército de 111.000 homens e de sua própria guarda imperial, marinha e força aérea. No entanto, nunca foi possível exercer poder de fato sobre seu país. Os japoneses controlavam cada detalhe de Manchukuo.

 

Pu Yi, um prisioneiro de Mao.

Com o Japão quase derrotado na segunda guerra mundial, Stalin invade Manchukuo e  captura o imperador. Quase não houve resistência, ainda que o país contasse, à época, com 170.000 militares. Não sendo suficiente ter passado toda a sua infância preso dentro dos portões da cidade proibida, assim como toda a sua vida adulta em embaixadas e territórios ocupados e, como imperador novamente, preso a um palácio controlado por japoneses (eles estavam em toda a estrutura governamental de Manchukuo), Pu Yi é mandado à Sibéria e, depois, à China controlada pelos comunistas. Torna-se um prisioneiro, agora oficialmente. Por dez anos, Pu Yi esteve preso em um centro chinês de reeducação. O ex-imperador era, finalmente, um preso comum.

 

Pu Yi, um jardineiro em Pequim.

Após dez anos em detenção, Pu Yi recebe permissão de Mao para retornar a Pequim. Para quem assistiu o filme “O último imperador”, a cena final, em que Pu Yi retorna à cidade proibida como cidadão, é emocionante.

Em Pequim, Pu Yi estabeleceu-se como trabalhador do jardim jotânico de Pequim.  Casou-se com uma enfermeira e , de 1964 a 1967, trabalhou na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

Faleceu em Pequim, em 1967, aos 61 anos.

 

De garoto comum a imperador. De imperador a cidadão.

 

 

 

 

 

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