Venezuela: O Socialismo do Séc. XXI

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*Texto de Guilherme Cadima, empresário, jornalista e coautor do livro – A morte de Ayrton Senna  Dentro das Redações 


“Às vezes tem leite, às vezes não. Até mesmo produtos mais caros, como o arroz, estão difíceis de serem encontrados”. Este relato poderia ser de um refugiado sírio ou de uma pessoa que do leste europeu do final dos anos 80, mas na verdade é de um jovem estudante de 22 anos morador de Caracas, capital da Venezuela. Carlos Feijóo conversou com a gente e contou um pouco das dificuldades que ele e seus compatriotas têm passado para obter artigos básicos, como itens de higiene, água, eletricidade e o principal: alimentos.


Hoje as pessoas não vivem e, sim, sobrevivem, na Venezuela. A afirmativa vem de uma pesquisa realizada pelas três principais universidades do país sobre as Condições de Vida dos Venezuelanos (Encovi). O estudo concluiu que 87% da população não tem dinheiro para comprar comida em quantidade suficiente para a nutrição – apenas uma dieta de sobrevivência baseada em carboidratos.

 

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Essa situação é resultado das políticas econômicas planificadas de Chávez e Maduro. Toda essa tentativa de controle falhou. A inflação passou de 720% ao ano, e o PIB do país cairá 8% em 2015, segundo projeções. Nenhum venezuelano ficou livre dessa crise e, como esperado, os que mais sofrem são os pobres. O estudo do Encovi aponta que esta parcela da população (12,1%) realiza apenas duas refeições ao dia. Já a classe média, que ainda pode fazer três refeições por dia, sente uma queda considerável na qualidade da alimentação.


A família de Carlos se encontra na faixa da classe média venezuelana. Ele estuda história na Universidade Central de Caracas, e seu pai tem uma pequena empresa no ramo de transportes escolares. Porém, a renda mensal deles não cobre os gastos com alimentação. “As economias que o meu pai tinha guardado durante a vida estão sendo gastas para nos alimentar”,   explica o estudante.

Desde 2014 o governo vem adotando o racionamento de alimentos que compõem a cesta básica. A ideia é evitar que uma pessoa compre uma quantidade maior de um determinado produto à aquela considerada necessária pelo governo . Por mais que os órgãos oficiais evitem usar o termo, há um controle por meio de impressão digital e registro de identidade. Carlos conta que a mãe dele é a encarregada de realizar as compras de casa, uma vez que ele, os irmãos e o pai trabalham e/ou estudam. “Minha mãe compra alimentos de acordo o número da identidade dela. Eles (o governo) a permitem comprar comida nas terças-feiras e sábados. Ela fica horas na fila, e muitas vezes consegue comprar apenas macarrão”. Alimentos como arroz, ketchup, atum em lata e maionese se tornaram artigo de luxo no país – apenas pessoas envolvidas com as forças armadas ou a política tem acesso a elas. Já carne, peixes e frango até que são encontrados nos mercados, mas os preços são astronômicos.
Além da falta de alimentos, há outras ‘cortesias’ do planejamento estatal: a falta de água e energia elétrica. Os blackouts são comuns, e bairros ficam semanas sem água, e isso obriga a população a buscar ajuda de parentes e amigos onde há abastecimento.

Protestos


Todas essas privações levaram parte da população a se revoltar e tomar as ruas nos últimos anos com las protestas. Só que a repressão da Guarda Nacional Bolivariana foi violenta, deixando feridos, presos e até mortos. Um dos mortos pela Guarda Nacional foi o jovem Kluivert Roa, que tinha apenas 14 anos e foi baleado na cabeça durante um protesto em San Cristóbal – protesto este também reprimido pelas forças de segurança. Perguntei a Carlos se ele chegou a participar de algum protesto contra o governo. “Eu não vou correr esse risco, a repressão é muito violenta e eu não quero me expor dessa forma. Primeiro, que esses protestos parecem inúteis, segundo que o governo não irá ouvi-los e, desde 2014, quando a polícia tomou as ruas, eles mataram 43 jovens que protestavam”, afirma. Esse clima de medo e falta de perspectivas fazem com que os venezuelanos se desanimem.

 

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A oposição também não consegue empolgar. Mesmo com a maioria no congresso, a Suprema Corte (para a qual os  juízes foram nomeados por Chávez e Maduro) acaba barrando as medidas que o legislativo aprova contra o Maduro. Vale lembrar que um dos mais proeminentes líderes da oposição, Leopoldo López, segue preso e cumpre pena de 13 anos de detenção por crimes de ‘terrorismo’, incitação de delinquência, incêndios, caos e danos à propriedade pública. Quem acompanhou a história de perto sabe que López não cometeu esses crimes, e que sua prisão foi um artifício de Maduro para calar a oposição e conter os protestos.
“Aqui, a liberdade de expressão não existe, mas, se você não falar dos problemas governamentais, não será diretamente ameaçado. Para um cidadão médio a criminalidade é o principal problema a ser enfrentado. Há criminosos que são acobertados pelo governo justamente para tirar o foco dos verdadeiros problemas do país”, conta Carlos. Ele acredita que o governo se aproveita da criminalidade para criar um inimigo em comum e um espantalho para manter sua autoridade num país com várias crises, entre elas a de identidade.

Fuga de cérebros

A crise é tanta que nos últimos 10 anos, estima-se que entre 800 mil a 1,2 milhão de venezuelanos deixaram o país. São pessoas com formação, mas resolvem se arriscar por uma vida melhor  onde haja estabilidade. De 2013 para cá, a Universidade Central de Caracas perdeu mais de 600 professores. A maioria optou por dar aula em países vizinhos. Essa “fuga de cérebros” agrava as chances do país sair da crise e, por outro lado, mostra uma situação desesperadora. No caso de Carlos, ele tem exemplos de amigos próximos. “O primeiro foi Jose. Ele se mudou para Miami em 2011 e hoje estuda Engenharia de Sistemas. Está muito bem. Em dezembro de 2015, foi a vez de Gabriel, que estudava odontologia, mas conseguiu transferência para o México. Há também a melhor amiga da minha irmã; ela foi estudar medicina na Colômbia. Muitos jovens talentos têm deixado o país de forma prematura”. Por último, eu perguntei se ele pensa em seguir os passos dos amigos, deixar a Venezuela e tentar uma nova vida em outro país.

Eu não mudei porque amo o meu país, quero ser protagonista na reconstrução e, além disso, há toda uma carga emocional: minha família e amigos. Até tenho oportunidade de ir embora, tenho passaporte espanhol e parentes por parte de mãe que moram lá. Mas não seria uma boa ideia deixar o país sem um diploma universitário, eu não ganharia muito deixando o país.

 

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