Como as olimpíadas saem do seu bolso – um guia simples.

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Sr. Nikita, pernambucano, 69 anos, ex-atleta olímpico brasileiro,  foi escolhido pelo comitê olímpico brasileiro, o COB, para carregar a tocha olímpica. Nada mais justo. Após 200 metros, enfiou o pé em um buraco na rua e caiu, derrubando a tocha. Desejo tudo de bom ao Sr. Nikita, que desbravou o mundo da natação no Brasil quando “alto rendimento” ainda significava acordar antes do sol nascer e ir nadar na mesma piscina que as crianças e as senhorinhas da ginástica com boia espaguete. O Sr. Nikita está bem. A tocha está ótima. Há um simbolismo na queda do Sr. Nikita. É isso que o Brasil reserva a todos nós: a queda. O Comitê Olímpico está sem um só arranhão. O buraco ainda está no mesmo lugar.

 

Mas qual o tamanho do tombo que nós todos levamos até agora?

Sim. Quanto você pagou até agora? De onde você acha que saiu o dinheiro? Até o momento, 40% do que foi utilizado nas preparações, infraestrutura, consultorias, etc, foram de origem pública – dinheiro do brasileiro -, que é o equivalente a R$16.8 bilhões. Desse valor, R$2.8 bilhões foram gastos apenas por conta das olimpíadas. O restante é referente a obras públicas adiantadas ou ampliadas por conta do evento, que serão o chamado “legado olímpico”. De uma forma simples, vamos explicar como funciona o financiamento das olimpíadas. De antemão, já avisamos que o Comitê Olímpico Internacional é muito mais transparente e correto em suas ações (gastos, investimentos, prestação de contas) que a FIFA. O vídeo do canal “BRS Explica” mostra como funciona:

 

Existem três meios de financiamento das olimpíadas: Dinheiro público, privado e arrecadação com os jogos. A verba é separada em três partes: Comitê Organizador Rio 2016, Autoridade Pública Olímpica e o Plano de Políticas Públicas. A totalidade da verba do comitê organizador é privada. A parte orçamentária referente à Autoridade Pública Olímpica (R$7.000.000.000,00) é 60% privada e 40% pública. Parte do que for feito para as olimpíadas pela APO será, depois, destinadas a uso social. Por fim, é no Plano de Políticas Públicas que estão as “obras de legado”. Todas essas obras, porém, teriam que ser feitas em algum momento e foram ampliadas ou adiantadas apenas por conta das olimpíadas. É um “legado” que seria construído mais cedo ou mais tarde. No caso do Plano de Políticas Públicas, 57% do dinheiro é seu, é meu e é do Sr. Nikita.

Mas ainda existem outros buracos. O Brasil organiza o esporte nacional da seguinte forma: para coordenar, administrar e reunir as entidades esportivas nacionais, existem as associações, federações estaduais e confederações brasileiras de esportes. Existem esportes tradicionalíssimos no Brasil. Esses esportes podem, sim, ser incentivados.  Um dos incentivos, por exemplo, vem do dinheiro arrecadado com a loteria brasileira. De tudo que foi arrecadado pelas loterias da Caixa Econômica Federal em 2015, mais de 1 bilhão de reais foram destinados ao Ministério do Esporte, comitês olímpico e paraolímpico brasileiros, aos clubes de futebol e à confederação brasileira de clubes. Tudo isso graças à lei  Agnelo Piva  (Lei N° 10.264 de 2001). Quer exemplos da boa utilização desses recursos? O Politburo separou dois para você:


1 – O super tradicional  ESQUI ALPINO

 

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A CBDN será responsável, segundo o convênio com o Ministério do Esporte, pela “Detecção, desenvolvimento e preparação de atletas de modalidades olímpicas de neve (Biathlon, Cross Country, Ski Alpino, Ski Freestyle e Snowboard), por meio da utilização de conhecimento das áreas da ciência aplicada ao esporte e etapas de treinamento no Brasil e no exterior”. 

Para isso, o governo federal destinou, até 2015, quase R$8.000.000,00.

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O Brasil participa de competições de esportes na neve oficialmente desde 1966. São muitos anos de tradição? Sim. São muitas medalhas? Não.  É justo o valor? Não.

Pelo teor do convênio, a CBDN parece ser muito séria no que planeja fazer pelos atletas e pelo esporte. Ainda assim, estamos falando de desportos na neve no Brasil. Segundo o site www.brasil2016.gov.br, as confederações de inverno ainda receberão R$ 4.470.400,00 em 2016.


2 – O conhecidíssimo hóquei sobre  grama

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Hóquei sobre grama é como o hóquei sobre gelo, mas com R$4.901.295,63 a mais.

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O Politburo analisou o esporte e concluiu:

  • hóquei sobre a grama é tão divertido quanto tiro com arco;
  • Vale a pena assistir o time argentino feminino de hóquei sobre grama.

A arena que será utilizada foi feita para o Pan de 2007 e reformada para as Olimpíadas. Este blog aposta que, após o término dos jogos olímpicos, o centro de hóquei sobre grama será transformado em um condomínio do minha casa minha vida, construído por empreiteira idônea.

Mas essas não são as únicas confederações com repasses de recursos públicos. Muitos milhões a mais foram gastos na preparação de atletas brasileiros das mais diversas modalidades desportivas.


Acha que acabou?

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Mas não são apenas os jogos olímpicos que o brasileiro financia. O dinheiro escoa pelo ralo da administração pública para financiar outras competições por meio da Caixa Econômica Federal. Com toda a publicidade em grandes redes de televisão, e em horário nobre, seria necessário gastar R$100.000.000,00 em 2015 com publicidade em parceria com times de futebol? A empresa chegou a repassar R$1.000.000,00 a um time da série B, o CRB, de Alagoas, no início de 2016. Isso dá direito à logo do banco em um painel atrás dos jogadores durante a coletiva de imprensa e à presença da logo nas camisetas. 288.925 maceioenses vibram: Viva o CRB!

“Ao remo!

Pois nosso norte

De glórias traçado está

Façamos o peito forte

Que a pátria forte será.”

 

 

É papel da Caixa apoiar o futebol brasileiro? A Caixa ganha algo com isso? O povo alagoano agradece? Não, não e não.


O que achamos

Uma coisa deve ser clara: não é por que um valor financeiro, parte de um orçamento, está vinculado obrigatoriamente, hoje, a um gasto ou repasse específico que, necessariamente, no futuro esse valor precisará ser gasto com o que foi proposto originalmente. É simples mudar isso. Se é possível vincular partes do orçamento a gastos específicos, então é possível extinguir recursos relacionados ao pagamento de despesas que não se justifiquem. Como? Que seja revogada a lei que especifica a porcentagem de recursos da arrecadação das loterias dedicados às confederações, por exemplo. Que seja criada uma nova lei que estabeleça critérios diferentes para a distribuição dos recursos. Ainda que se insista em um financiamento público do esporte brasileiro, é possível fazê-lo com muito mais eficiência.

Nos últimos cinco anos, o sistema de saúde pública do Brasil, o SUS, perdeu 23.000 leitos hospitalares. Mas não se preocupe: sempre teremos o ‘Ski Alpino’.

O Sr. Nikita cai. Você cai. Todos nós caímos.

 


Extra: Em 2014, foi feito um referendo em Cracóvia, cidade polonesa, para saber se os residentes da cidade gostariam de receber os jogos olímpicos de inverno de 2022. 69,72% dos participantes do referendo se opuseram à ideia. Os cidadãos entenderam que as obras de infraestrutura seriam feitas com ou sem os jogos. No referendo, foi possível escolher em que projetos seriam colocados recursos nos próximos anos. Dentre os projetos descritos, apenas as olimpíadas não foram aprovadas.

Esse povo da Cracóvia é mesmo bem esperto.

 


 

Extra: Tabela de preços dos ingressos.

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