De trás do sangue

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O madrugar e o arroz frio

São quatro horas da manhã. Yakitori já está de pé. Sem qualquer despertador, ele se levanta em silêncio. Yakitori sabe que bastaria um tropeço no escuro sobrado de 70m2 para acordar seus dois filhos, sua filha mais nova e sua esposa. As aulas dos pequenos só começam três horas mais tarde, então ele faz de tudo para não ser escutado. Seu arroz está na geladeira – Hana, sua esposa, deixa sua comida pronta todas as noites. Como está atrasado, come com rapidez o alimento ainda gelado com algum molho de soja. O carboidrato matinal é o que assegurará ao homem de 35 anos seu sustento pelas próximas dez horas, quando poderá almoçar.

– Há uma semana não converso com meu filho mais novo, Suijiro. Ele não estava indo bem na escola. Por isso, queria falar com ele sobre responsabilidade. Sinto falta de ter um desses momentos.

Yakitori sai na ponta dos pés. Ele só retornará para casa em uma semana. Não teve tempo de se despedir de ninguém. São apenas dez minutos de bicicleta do pequeno bairro de classe média onde o pescador e sua família moram até o porto, onde todos já aguardam a hora de partir tomando café.

A vida em um navio baleeiro pode ser difícil. Quando este não está se esquivando de legislações internacionais confusas, procura passar desapercebido pela mídia. Ancorar em águas calmas é uma situação rara, que costuma durar poucas horas. Muitos grupos de direitos dos animais estão muito bem equipados para atrapalhar a viagem de grandes baleeiros japoneses como o Aozora.

– Em uma boa semana, somos atacados apenas duas ou três vezes, diz o jovem filipino, que conseguiu um emprego no famoso baleeiro Aozora há pouco menos de três meses.

 

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O cheiro do convés pela manhã é insuportável e facilmente causa náuseas em marinheiros de primeira viagem. O capitão do barco, um ex-combatente da guerra da Coréia, diz que “se o marujo não se acostumar com o cheiro no mesmo dia, dificilmente terá sucesso por aqui. Não há tempo para passar mal”.

Cinco horas da manhã e o sino é tocado com força. Um rapaz de vinte e poucos anos assobia do alto do navio três notas longas. É hora de ir.

– O problema é que, em sua maioria, estes são jovens que não sabem fazer outra coisa. Seus pais eram baleeiros. Alguns deles têm avós baleeiros já aposentados e ouvem histórias do mar desde pequenos. Uma vez que uma família entra nesse ramo, fica muito difícil sair. Eles aprendem o trabalho ainda adolescentes.

Se não caçarmos essas baleias, o atum vai subir de preço.

A 100 km do Aozora, de volta ao porto Iwakuni, em Yamaguchi, parece difícil entender a lógica de preços do atum e sua relação com a oferta e demanda por baleias. A presença de variáveis que representam o risco de se ter falta de baleias no mercado em longas e complexas equações já se tornou ponto principal de estudo em diversas graduações em economia. Saber o preço do atum com antecedência de horas pode ser a diferença entre ganhar muito ou pouco dinheiro e, segundo alguns economistas, conhecer a disponibilidade da carne de baleia antes de todos é exatamente o que fará com que seja possível determinar o preço do atum pouco antes de um outro escritório de análise de risco na região – a rapidez é o que faz esse mercado girar. Saber primeiro é a batalha diária. O valor do atum não se faz apenas em relação à qualidade da carne, mas principalmente por uma soma de risco, projeções de volume, oferta e demanda de outros peixes (ou mamífero marinho, no caso), custos gerais e até mesmo questões culturais – jovens japoneses têm procurado a carne bovina cada vez mais.

 

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Perspectivas

– Espero que meu filho mais velho comece a vir comigo a partir do ano que vem. Eu só quero que ele vá para a Universidade de Tokyo e vire um bom pai de família, que tenha um bom carro, um bom emprego e que vá me visitar de terno e gravata (risos). Não desejo o que vivo aqui para ninguém. Mas sei que ele precisa ter o dinheiro dele.

Mais três notas longas são ouvidas do alto do navio. O mesmo marinheiro as repete, como fez pela manhã. Estão entrando em área de nevoeiro. O clima do navio fica tenso.

– Já pegamos duas semana passada exatamente nessas condições. Quando você se dá conta ela já está emergindo do seu lado.

Yakitori já estava na água com o bote. Quando há nevoeiro, um batedor segue à frente do navio em um bote equipado com um pequeno motor elétrico que dificilmente conseguiria tirar o marinheiro de uma situação de perigo.

Ele estava certo. O barulho lembra o de um bloco de gelo se desgrudando de um glaciar e caindo na água. O misto de medo e admiração surge na forma de um respeito profundo. Ela é imensa, majestosa. Comandos em japonês são gritados desde o navio. O barulho é horrível. O primeiro disparo passa perto, mas não a acerta. O segundo arpão perfura a pequena Minke de dez metros, que definha lentamente. O resto fica para a imaginação de cada um.

Não há mais nada para o dia. Com a visibilidade disponível, o navio vira alvo fácil de grupos protetores de baleias, que colocariam em risco a tripulação. Mas o navio atracará no porto por apenas algumas horas, e logo deverá voltar ao mar – o que representa quase oito horas de paz para Yakitori.

Já no porto, o pescador sobe em sua bicicleta, ajeita seu boné e acende um cigarro na tentativa de amenizar um pouco o frio da região. Mais dez minutos de pedalada até estacionar na garagem de casa. Yakitori chega, prende sua bicicleta, ri e fala com a voz na altura normal: “Todos já saíram”.

 

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A realidade

O Japão luta desesperadamente para salvar sua indústria baleeira, mas suas tentativas de criar expedições científicas para determinar melhores padrões de controle da população de baleias e estímulo à prática sustentável de caça têm dado errado. Há pressão internacional para que nenhum esforço japonês se solidifique e que as regulações internacionais às quais o país está sujeito se mantenham de pé, rígidas como sempre, e livres de qualquer tipo de atualização baseada em pesquisas. Como uma indústria que depende de pesados subsídios da população para sobreviver, cujo produto final é estocado e gera mais de cinco toneladas de carne não vendida anualmente, e que não chega a 1% do consumo em seu pico (nos anos 60) sobrevive? Um motivo no mínimo curioso para isso vem de uma pesquisa (http://www.csun.edu/~kh246690/whaling.pdf) que explica não só a questão cultural (de soberania, talvez?) que envolve o consumo de baleias mas, também, o fato de que na própria língua japonesa, o Kanji relativo a “baleia” possui, em seu radical, o kanji “peixe”. O japonês médio não vê a baleia romantizada ocidental que o resto do mundo vê, ou como um mamífero inteligente que deva ser preservado, mas como um alimento histórico que, segundo pesquisas, já faz parte da dieta local há mais de dois milênios.

Agências japonesas de pesca, assim como o órgão controlador da atividade no Japão se baseiam em quatro pontos principais na defesa do “whaling”, ou a pesca de baleias:

1 – Por ser uma atividade tradicional, é um direito cultural do Japão continuar com a atividade.

2 – Alguns tipos de baleia estão crescendo em números que podem afetar o ecossistema, prejudicando a existência de outros peixes.

3 – O Japão defende que, segundo regras internacionais, eles podem realizar o scientific whaling (o estudo das baleias combinado à caça) e se utilizar, para fins comerciais, da carne e de outros produtos processados das baleias capturadas.

4 – O período de restrição à caça imposto pelo órgão internacional IWC, em 1982, deveria acabar em 1990 com posterior estudo sobre a caça e o comércio sustentável de baleia e, por isso não ter ocorrido, o país se sente livre para continuar realizando a pesca com suas próprias regulações.

Em última análise, ainda existe um fator muito importante na busca do Japão pela liberdade de explorar tais recursos: as agências de pesca e o MAFF (órgão controlador da atividade de pesca de baleias no país) perderiam poder político. E o MAFF funciona de forma diferenciada quando comparado a outros órgãos estatais, tendo muito mais liberdade para definir regras, que quase nunca são estabelecidas legislativamente.

Kujira wa Tabetemo!

Vamos comer baleia!

Canadá, Noruega, Coréia do Sul, Estados Unidos – todos caçam baleias.

Somos todos comedores de baleia.

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