Jeannette, a sufragista

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Quem nota a histeria resultante de quase todo o discurso feminista moderno não imagina que, depois da mentalidade revolucionária enraizada, os frutos desta seriam colhidos de forma dispersa e, algumas vezes, bem longe de onde estava a copa da árvore. Ou; por que uma jovem do interior de Montana, no início no século XX, iria se tornar uma defensora extremista do pacifismo?

Former U.S. congresswoman Jeannette Rankin (R-Montana) prepares to leave Washington, June 2, 1932, for a speaking tour calling for a peace plank in the Republican and Democratic party platforms. As the first woman elected to congress, she did not vote for war in 1917. (AP Photo)

Em 1917, Jeannette Rankin ainda se acostumava  à cadeira na House of Representatives e e com o peso de ser a primeira mulher eleita para a casa quando deu o voto que a marcaria pelo resto de sua vida. Jeannette, contrariando maioria dos colegas congressistas e o senso comum, votou contra a declaração de guerra com a Alemanha. Jeannette terminava sua primeira experiência na política em 1919.

Outros tempos

Em 1939, seu rosto já não era novidade no congresso americano, embora o hiato de 20 anos entre uma legislatura e a outra. A ideia de uma mulher congressista já não era um problema tão sério. Jeannette foi eleita congressista novamente e tomou posse de um novo discurso: se antes  o sufrágio universal era o objetivo político máximo da congressista, agora novas concepções surgiam,  já trazidas tanto de sua legislatura anterior como de seu tempo trabalhando em projetos internacionais pela redução e limitação de armamentos. Seu novo discurso provaria, apenas, que a ampliação do sufrágio viria acompanhada de questões as quais, nem de longe, poderiam ter relação com a simples expansão do poder de voto às mulheres.

E foi assim que Jeanette Rankin assumiu sua inviolável defesa do pacifismo, o que a rendeu outro voto contra a participação americana em uma guerra. Nesse caso, na segunda guerra mundial, ainda que os ataques em solo americano tenham sido uma ofensiva sem aviso, premeditada e sem chance de defesa.

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Montana, 11 de Junho de 1880

A guerra de secessão havia terminado 15 anos antes do nascimento da sufragista americana e vitimado 750.000 pessoas, segundo J. David Hacker. Mais de 2% da população americana (31.443.321) morreu vítima da guerra, direta ou indiretamente. Jeanette teve a sorte de crescer em uma família completa, mas provavelmente pôde ver de perto a devastação presenta nas famílias de conhecidos. Algumas décadas antes, a morte do patriarca de uma família significaria poucos direitos de propriedade à viúva sobre a casa ou as terras do falecido marido . Até dez anos antes do nascimento de Rankin, mulheres não podiam nem mesmo advogar, em Illinois. No último quarto do século, mudanças já ocorriam em alguns estados. A igualdade no âmbito civil era cada vez mais notória. Um ambiente com garantias legais às mulheres poderia ter influenciado Rankin de alguma forma. E influenciou.

Filha mais velha de rancheiros e ajudante em sua própria casa, ela contou com a apreciação de seu pai desde jovem – já que era a filha mais velha, além de muito zelosa. O pai a ouvia com atenção e a incentivava a realizar suas vontades. É um mistério puramente pessoal, vindo da própria mente de Jeannette, que uma menina tão próxima das questões familiares, e com larga experiência na área, pudesse ter aversão a ser, como diz Gayley Shirley em sua obra More than Petticoats: Remarkable Montana Women , uma “máquina perpétua de bebês, como sua mãe”.

O desejo pessoal de buscar a paz – como demonstraria anos depois – pode sair do seio de uma família caridosa e amável, mas estas qualidades inerentes à sua família não seriam justificativa para mudar o sentido daquilo que ela buscava – a paz – para algo completamente diferente: a paz a qualquer custo. Foi  uma mudança tão radical que não poderia vir da educação de uma família de rancheiros do interior dos Estados Unidos do final do século 19, e nem mesmo de direitos cada vez maiores garantidos às mulheres ao longo do século  citado. Essa mudança  teria que ter origem em um outro lugar.

Rankin acreditava que cabia às mulheres o voto pela paz e a promoção da pacificação mundial, provenientes sempre do movimento sufragista. Se a jovem sufragette  não foi ensinada dessa forma em sua própria casa, por mais “progressista” que seu lar fosse (seu pai não era dado como um homem violento ou que impusesse muitas regras, nem irritadiço, contanto que os filhos realizassem suas tarefas domésticas), só poderia ter tido contato com as novas ideias em seu período no ensino superior ou no movimento sufragista, que era um verdadeiro balaio de abstrações, algumas vezes excludentes, infantis ou contraditórias entre si. Uma coisa, no entanto, pode ter sido essencial na defesa incessante que Rankin fazia de suas propostas: quando criança, era facilmente irritável e dominadora.

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 Por incrível que pareça, a jovem interiorana de Missoula, cidade com 5.000 habitantes à época de sua juventude,  concluiu  o curso de  biologia da Universidade de Montana  e  iniciou alguns empreendimentos que vez ou outra davam errado, como o de designer de móveis ou o de estilista. Aos 28, já em São Francisco, estudou filantropia. Em seguida, foi para o estado de Washington, onde se envolveu com o movimento sufragista e estudou em uma universidade local.

Não há como ter certeza de que suas ideias tenham amadurecido em seu período universitário e, da mesma forma, não há como dizer com exatidão se as universidades da época já se engajavam em algum tipo de doutrinação. No entanto, é possível que Rankin já tivesse contato com o livro de Mary MacLane, de Butte (Montana):

É uma coisa difícil e amarga ser uma mulher

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O diário publicado de Mary MacLane fez sucesso nos Estados Unidos do início do século XX. Se não todas, boa parte das garotas com acesso ao material o leram, mesmo que escondidas. O livro continha material profano, referências ao lesbianismo, dentre outras coisas consideradas baixas para os padrões da época. Com mais de 100.000 cópias vendidas,  MacLane deixou algo para as jovens daquela época e vociferou, em termos gerais, o desejo de libertação de algumas mulheres. Esse sentimento, claro, era aquele de uma burguesia crescente. Fosse aquele  um desejo real da alma de uma mulher, ou não, no mínimo a obra pode ter feito a cabeça de muitas meninas naquele momento. Mas seria Rankin tocada pela obra se ela própria sempre foi uma mulher liberta e, ao mesmo tempo, sempre teve amor por  sua família, tendo até mesmo largado seu emprego para cuidar do pai às vésperas de sua morte? Rankin tinha um espírito maternal, mesmo que não tenha sido mãe. O grito de Mary MacLane não parecia ser o grito de Jeannette.

Não sendo abertamente adepta de doutrinas revolucionárias ou coisas do tipo, então, surge mais uma vez a mesma dúvida: de onde veio a ideia de fazer o menor, ou seja, o sufrágio universal, integrar algo maior, a agenda revolucionária? De onde veio a ideia de transformar o sufrágio universal em apenas pequena parte constituinte de um arcabouço ideológico e, não mais, uma plataforma política em si mesma? Essa é a pergunta de um bilhão de dólares. Em paralelo, seria o mesmo que perguntar: por que um abstêmio não poderia ser apenas um abstêmio, que se abstém de bebidas alcoólicas e outras coisas?  Por que um abstêmio se relacionaria com algo maior chamado  “proibicionismo”, que  proibiria o consumo de álcool a todos?

Talvez essas ideias tenham nascido de autores que Rankin lia, como: Benjamin Kidd, Henry George e Jack London. Talvez não só ideias tenham nascido, mas confusão. Por outro lado, segundo Norma Smith em Jeannette Rankin, America’s Conscience  a escola de filantropia por ela frequentada não tinha o mesmo objetivo dos autores citados – mudar o mundo e/ou mudar o homem – mas algo muito mais prático. Por isso mesmo, Rankin passou os anos seguintes em um trabalho incessante pelos mais necessitados, principalmente pelas crianças e mulheres em situação de pobreza. visitando bairros pobres e ajudando os miseráveis. A vontade de ajudar os outros falou mais alto que qualquer autor progressista.

O pacifismo

Aquele que se acostuma a rótulos vazios, como o de “pacifista”, vence a necessidade de entender e visualizar a realidade como ela se apresenta e, por fim, acaba por adequá-la (a realidade)  àquilo que projetam como sendo, na visão deles, a realidade dos fatos ou o que desejariam ter como realidade. Para isso, malabarismos dos mais difíceis têm que ser executados. Um deles é o pacifismo por princípio e norteador das ações políticas. Sendo princípio, é inquestionavelmente idiota. Exemplifico: como um grupo pacifista resistiria a uma hipotética agressão externa à liberdade de expressão dos membros do próprio grupo de pacifistas? Obviamente, sendo pacifista; deixando de existir. Em uma amostra de cem anos de embates políticos seria inevitável, estatisticamente, que os pacifistas fossem extintos – as autocontradições do pacifismo como princípio não resistem a uma tarde de reflexões  em um alpendre de Montana. Ainda na mesma linha, se um Pearl Harbor não foi o suficiente para que a congressista votasse pela entrada americana na segunda guerra mundial, quantos ataques iguais àquele seriam necessários? Aparentemente, a congressista não media os fatos com senso de proporção apurado.

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Si vis pacem, para bellum

Esse “pacifismo”, que possui efeito contrário ao proposto – isso, claro, se o leitor acreditar mesmo que o objetivo era, de fato, a paz -, exterminando, por fim, os próprios pacifistas,  cumpriu o mesmo objetivo do “empoderamento” feminista moderno que, muito ao contrário de realmente “empoderar” uma mulher, submeteu-a aos caprichos de uma elite, muitas vezes nem mesmo composta por mulheres, e que agora dirige a tropa. Para mudar o homem há que se mudar, antes, sua linguagem, e é justamente aí que surge a distinção entre pessoas que buscam a paz, que são pacíficas, e as que são pacifistas, e buscam, querendo ou não, o apaziguamento*.

Rankin foi deixando um legado contrário àquele que pretendia deixar. Poderia a americana imaginar que, aos 88 anos, quando protestasse contra a guerra do Vietnã estaria, na verdade, protestando em favor da dominação comunista total do sudeste asiático e em favor da morte de milhões de pessoas? Jeannette não poderia imaginar, acredito, que ir à guerra era justamente a melhor forma de garantir a paz.  Ao fim da vida, queixou-se:

Eu trabalhei pelo sufrágio (universal) por anos, e o consegui. Eu trabalhei pela paz por 55 anos e nem cheguei perto de consegui-la

15 Jan 1968, Washington, DC, USA --- A group of women belonging to the Jeanette Rankin Brigade march in protest of the Vietnam War. Jeanette Rankin, the first female congress member, stands holding the banner at center (wearing eyeglasses). --- Image by © Bettmann/CORBIS
by © Bettmann/CORBIS

Não era mais uma questão de alcançar a paz, mas de alcançar o fim total dos conflitos. Nessa forma de raciocinar de Jeannette, um homem não poderia mais se sobrepor a outro de forma alguma e, caso o fizesse, a vítima poderia, no máximo, esboçar ação reativa – e olhe lá. O que é um mundo sem qualquer conflito senão o próprio desejo pelo paraíso terrestre? Não leva muito tempo para perceber que, disso, se entende que não é importante o certo ou o errado, mas o estado de não-conflito. Como? A única forma é por meio de uma ordem maior, terrena, englobando as forças conflitantes para submetê-las à passividade. Rankin imaginava que tal ordem seria espontânea em todo o tempo? Naquele momento da história, não havendo autoridade que pudesse contrariar as ações violentas de um dos lados de um conflito, o outro lado deveria resignar-se e observar calado seu próprio fim?

Não é fácil para um ser humano achar redenção depois de apoiar certas ações, na mesma medida que é inimaginável para uma mente sã  lutar contra a integridade física de populações inteirasÉ por isso mesmo, por ser inimaginável, que a autocrítica é insuportável quem teria força para, após décadas defendendo o indefensável, perceber que ajudou a perpetuar aquilo contra o qual a pessoa mesma acreditava lutar contra? Esse autoexame é próprio de quem consegue sair do ponto central da história, estando à disposição de Deus. A outras pessoas, tal análise é tão difícil, tão assombrosa, que é mais simples procurar legitimar suas ações no coro uníssono de uma massa histérica.

Um fato curioso da vida da mulher é que, após sair do congresso americano, estudou e criou admiração pela reação pacífica de Gandhi. O que Jeannette provavelmente não percebeu é que o indiano lutava exatamente pelo oposto do que ela defendia: um governo/instituição forte o suficiente para evitar disputas de poder, conflitos e ações violentas internas. No caso, o poder colonial inglês.

Jeannette Rankin faleceu realizando exatamente o que fez por boa parte de sua vida: deixou uma fundação com seu nome que, até hoje, já ajudou mais de 500 mulheres com bolsas de estudos que totalizaram mais de $1.000.000,00 em auxílios.

Então, por que uma jovem do interior de Montana, no início no século XX, se tornaria uma pacifista?

Por que uma jovem californiana da década de setenta se tornaria uma hippie pacifista?

E por que uma jovem de Manhattan, em 2016, se tornaria uma hipster pacifista?

 Confusão. A mesma confusão usando novas máscaras.

*Termo utilizado em sua conotação política referente à segunda guerra mundial.

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