Permita-me descrever meu presidente ideal

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Calvin Coolidge é amado por muitos americanos libertários por ter sido um presidente que não fez absolutamente nada, ou perto de nada, ou algo próximo disso. Em memória a Coolidge, é preciso dizer que ele não fez nada de caso pensado. E até quando nada queria fazer, fazia – como quando dava um jeito todo especial de que nada fosse feito (não é tão fácil quanto parece).

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Eu, por outro lado, acho que o melhor presidente que nós tivemos foi Washington Luís. O lema de Washington Luís era algo do tipo…”construir estradas”… ou “é necessário construir estradas”, ou algo assim. Bom, é meu presidente favorito, mesmo sendo um do tipo “fazedor”. O problema de presidentes que fazem é que, muitas vezes, eles optam por fazer bosta. Não era o caso de Washington, mas foi o caso de Getúlio, de Dutra (Café Filho, não. Café Filho era de boa, creio.), de Goulart (sim, pulei Kubitschek), e foi o caso de Geisel, Sarney e seus planos Cruzado, Cruzado II, Verão, MidSummer I & II, Outono IV, além de ter sido o caso de Lula e Dilma.

Sabendo que Washington Luís teve seu sucessor – esse, sim, retirado por um golpe, repensei como seria meu presidente favorito. Parei o que estava fazendo e comecei a olhar para o nada, tirando o foco de minha visão de qualquer coisa e fazendo aquela cara de bobo que olha pro horizonte. Por dois minutos, sonhei com essa história:

O jovem assessor acordou trinta minutos mais cedo para que conseguisse colocar a camisa para dentro da calça sem qualquer dobra saltando para fora. Arrumou o cabelo, fez um nó St. Andrew na gravata – simétrico e nem muito grande nem muito pequeno –  e partiu.

Os corredores já estavam cheios de outros assessores, todos perambulando com papéis nas mãos como máquinas de uma linha de montagem, alheios aos que passam por eles, distribuindo os cumprimentos automáticos, e repetidos, de quem fala “oi” até para a cafeteira. O rapaz adentra a grande sala ao final da repartição:

– Grawn! O pequeno macaco guincha enquanto posiciona as duas mãos logo acima da cabeça, em um sinal de espanto. As gargalhadas são gerais.

– Muito boa, Rufus! E mais risadas…

– Não acredito, Rufus! E risadas ainda mais longas.

O assessor olha aquilo com certo cansaço. Rufus, com um olhar cínico, cheio de desdém, fita os olhos do jovem.

– Bom dia, senhor. Eu vim entregar esses papéis para você assinar. Algumas medidas são urgentes e…

– Rufus interrompe o assessor com mais um grito, dessa vez com certa autoridade. Os funcionários, antes entretidos, agora esperneiam desolados:

– Você é um saco, André!

– Mal entrou e já estragou tudo!

Rufus percebe a situação desconfortável – ele é o presidente do país mas, ali, é apenas um convidado de seu ministro de Estado. Para apaziguar os ânimos, Rufus guincha novamente e aponta para André, rindo. Sua cartola e seu monóculo se movimentam com rapidez em seu corpo e quase caem. A comoção é geral. Todos riem bastante, com força.

– Você é demais, Rufus! E as risadas continuam. André, incrédulo, olha para aquele macaco sem ter qualquer reação. Ainda rindo, Rufus ajeita sua cartola para que ela não caia, separa, com o auxílio de um cartão American Express, uma pequena carreira de pó na mesa em que está e a cheira utilizando uma nota de cem reais enrolada. Limpa com velocidade  a cara suja de branco, olha ao seu redor e se joga da mesa onde estava, no centro de todos aqueles servidores, caindo exatamente nas costas de uma leitoa nervosa. Ele se agarra às rédeas e sai cavalgando para fora da sala. Quase na porta, enche a mão para dar um pequeno tapa amistoso nas nádegas da secretária que entrava na sala.

Meu presidente ideal é um macaquinho cocainômano, ginecômano –  DHS. Ou; desejo incontrolável por mulheres – com falhas graves de comunicação e sem qualquer encadeamento, mesmo que remoto, entre suas ações em uma sequência lógica de pequenos fatos consumados, sempre montado em uma leitoa nervosa e assustada. Esse é meu presidente ideal.

É isso. Se não podemos ter Coolidge e se não podemos ter Washington Luís, Rufus e sua leitoa nervosa seriam perfeitos. Não teríamos  quotes no mesmo nível dos de Coolidge, mas já é um começo:

É mais importante acabar com leis ruins que passar boas leis

ou;

Nós não precisamos de mais Governo Federal, mas um melhor governo local

ou;

Não há dignidade tão impressionante ou liberdade tão importante quanto viver por seus próprios meios

Rufus não é exatamente um Calvin Coolidge, mas também não é um Washington Luís. Mas o mais importante é que Rufus não tem qualquer possibilidade biológica de administrar nem mesmo a sua hora de ir ao banheiro, e é exatamente o que eu espero de um presidente, agora, no Brasil – incapacidade ou falta de vontade total de administrar qualquer coisa.

coolidge

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