O buzzover

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Há um jeito todo especial de não ser nada, vender o nada e, ainda por cima, ser visto como uma espécie de guru new age do mundo empresarial. Para alcançar isso, há uma nova cultura dedicada aos dropouts chic.
Se em 1975 era legal entrar em um curso de engenharia de uma boa universidade e, com uma boa ideia, arranjar motivos ainda melhores para sair, hoje as coisas são um pouco diferentes. Toda a sua dedicação ao SAT, aos cursos extracurriculares e, quem sabe, até mesmo a trabalhos voluntários são apenas uma forma de entrar em uma instituição Ivy league, estudar um ou dois anos (minor em gender studies) e, finalmente, sair da universidade sem qualquer diploma. O novo objetivo é ser o famoso late 70’s drop-out. É sexy. É cool.

É sexy. É cool.

Mas é claro – e ninguém imaginaria diferente – que a realidade chega como uma voadora no nariz. Ali está você: um NINJA (No Income, no Job, no Assets). A essa altura, se seu pai não for o pior da geração baby-boomer, ele já está triste e pensando em como falar de você na roda de amigos, na sinuca de sexta-feira. Na sua idade, ele já estava pagando o aluguel da casa ou financiando um imóvel. Se não fosse o caso, com certeza estaria trabalhando como vendedor ou contemplando algum tipo de promessa profissional concreta. Mas, aparentemente, foram necessárias apenas três gerações com acúmulo de riquezas, na classe média, para que a quarta pudesse ser o que ela veio para ser: sexy. Cool. Descolada.

Mas estou divagando.

Quando você é um dropout, seus assets são justamente ser sexy e ser cool. Tão intangíveis quanto qualquer esquema de pirâmide, mas ainda mais frágeis. Duram cerca de cinco anos, até que o termo lentamente vai perdendo o sentido original e se transformando em outra coisa. Ou seja: se você é um dropout, o mundo espera que você desenvolva a próxima grande coisa em cinco anos. Com 25 ou 26 anos você não é mais dropout, mas um desempregado.

Mas estou divagando.

Então você não se formou em engenharia – nem em línguas antigas da áfrica subsaariana – não possui estágios, dinheiro, contatos, mas uma boa ideia e algumas outras mentes sãs como a sua, conhecidos como “amigos”.Bacana. Você vê que sua ideia é boa mas que, talvez, algumas produtoras de aplicativos, lideradas por ex-CFOs formados em finanças pela Wharton University, estejam com ideias parecidas. Talvez essas produtoras consigam desenvolver a sua ideia mais rápido e com menos recursos. O sonho está acabando? Sim. Não, claro que não. É hora de dar a volta por cima.

Você volta para casa. Mas ninguém te recebe como um fracassado. Afinal, você foi, pelos últimos cinco anos, o Chief Executive Officer (No caso, presidente sem experiência)  e, se não bastasse, o Project Manager (um gestor de projetos que nunca estudou o PMBOK)  responsável não só por uma startup (empresa sem contabilidade à espera de uma ligação miraculosa) mas, também, pelo produto final (conjunto de códigos de programação soltos e alguns designs).  Você é um herói. Você é o Steve Jobs da família. Você só não vendeu a empresa para os “diversos interessados que ligaram” pois se incompatibilizou  (não sabia fazer um valuation) artisticamente com os outros team members. Tendo feito tanto, chegou a hora de passar o conhecimento adiante. Que sorte que a massa terá a oportunidade de ter contato com você. Quem sabe até você não identifica, em sua audiência, uma ou outra boa ideia que te dê a oportunidade de fazer uma aceleradora de startups (pilantragem) e ser consultor (haha).

Ok. Você é um dropout. Check Você é Sexy. Check. Você é cool. Check. Você é Founder e ex-CEO de uma startup com um nome legal? Check e Check, madafaca. Você é um guru new age empresarial shófem, agora.

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Antes de mais nada, o termo “new age” está presente em todo o conceito pois você, claro, entende que a empresa é um corpo místico e que é por intermédio da sua graça que todos os shareholders criam algo sinergicamente. Não se trata de contabilidade, finanças, projetos, TI. É mais que isso, estúpido! Para ser um bom guru new age empresarial, você deve saber se vestir – ou o o contrário disso. Mesmo que você tenha que administrar um budget do tamanho de um PIB africano, tenha a certeza de estar usando calças slim, daquelas que dão um “alô” à trombose. Seus óculos devem ter um ponto cego, ou: uma armação tão grossa que te impeça de ver qualquer coisa que esteja a 450 de você. Mas mais que saber se vestir – uma condição básica – o guru deve passar a ser um buzzer. Um buzzer? Sim. Basta  ter a certeza de que você tem um conceito vago relacionado a negócios,  trabalho em equipe, motivação ou gestão em sua mente. Agora,  você precisa vender uma imagem foda desse conceito vago ou até mesmo de um produto que ninguém sabe ao certo que faz. Junte as duas coisas em uma frase. Por exemplo: “Temos que juntar os players e, então, promover o motwork deles em torno disso, recebendo feedbacks que agreguem valor à decision chain“. Perceba que motwork não significa absolutamente nada. É apenas a junção de “motivation” com “work” em uma mescla sem qualquer sentido.

Há uma diferença entre as “buzzwords” e o “buzzover”

Buzzwords são palavras que muitas vezes não representam nada, mas que mostram, ao menos em essência, aquilo sobre o que se quer falar, ou ao menos têm um significado real e popularizado em um meio empresarial, por exemplo. Elas estão carregadas de significados específicos do meio dos negócios. O “buzzovering”, por outro lado, é uma cultura. É transformar a vida em uma buzzword. É não saber sobre o que se está falando, não ter ideia sobre o que se deve fazer ou qualquer experiência em relação ao que se vai fazer, mas transformar tudo, qualquer ação, qualquer planejamento, em uma carapaça de palavras em inglês achadas em um artigo qualquer. O buzzover surge antes da coisa à qual ele se refere, dando ampla possibilidade de interpretação. Quando expressa algo que existe, é algo pouco palpável. O agente do buzzover é o buzzer.

Essas são apenas buzzwords:

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Buzzover não é apenas o ato de criar uma buzzword, mas todo um ambiente e uma cultura de objetivos e fundamentações com pouco sentido, de inércia e irresolução ativa, de parecer sem ser, sem nem necessariamente gerar, de fato, um produto. A cultura do buzzovering é criar importância pessoal sem adicionar valor.

O trunfo – Pense fora da caixa!

“Para pensar fora da caixa você sempre vai precisar de alguém que esteja dentro da caixa. São as pessoas dentro da caixa que te permitem ir para fora dessa mesma caixa”. Li isso de uma pessoa que conceituou bem a cultura buzzover.  Sempre que alguém aparecer com uma proposta que pareça interessante mas que possua, claramente, possibilidade de melhoria, fale que a ideia é muito boa (olhe para o horizonte) mas que a pessoa deve mudar o mindset dela para “fora da caixa”. Cite diversos exemplos de empreendedores que pensaram fora da caixa. Esqueça de citar o mundo dentro da caixa ao seu redor: mercearias, construtoras, oficinas mecânicas, alfaiatarias, etc.

Acabe com o seu “rising tone interrogative sentence”

O passo final para diferenciá-lo.
“It’s like I’m an ex-Harvard studeeent ?
O que separa você, um millenial dropout, ex-CEO e consultor de uma aceleradora de promessas vazias e futuros incertos, de um vassalo publicitário com as mesmas skills é o “rising tone interrogative sentence”. Note que o seu coworker usa “like” com frequência na mesma frase. O tom de julgamento é constante do início ao fim da sentença. Ela não é confrontativa pois a essa geração faltam bolas o suficiente para dizer o que realmente se quer dizer. Por fim, note que a frase não era originalmente interrogativa, mas ela ganhou esse tom junto uma leve subida de três ou quatro notas na última palavra em relação ao resto da frase. Falar assim te colocará como co-founder, no máximo. Co-founders dificilmente viram gurus, amigo.

 

Agora, sim, você pode ser um buzzer da cultura buzzover e ajudar a aumentar a bolha das startups 2.0.

Bolha, não. Perdão. Bubble.

*A quem não entendeu, não é necessário ter saído da universidade no meio do curso para ser um buzzerO conceito é mais amplo que isso. Para ser um buzzer basta soar como um dropout. Sacou? Beijos de luz.

 

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