Você já deve ter ouvido falar de Miyazaki

Share


 – Conversa com um amigo –

Miyazaki tem uma proposta de animação estusiasmante, cheia de cores, movimentos fluidos, ambientes lindos e composição de cenas maravilhosa.

Só.

Miyazaki não deveria impressionar o ocidente. É algo completamente japonês e, ainda assim, muito bem incrustado na alma deles.

Miyazaki consegue hipnotizar um ocidental com a mesma eficiência de um rio, do vento batendo nas árvores, de um moinho girando ou das nuvens mudando de forma. E isso é essencial em sua obra:

Bem e mal são apenas a realidade em si, como um cão que morde uma criança – uma situação repleta de realidade sem que se possa ter ódio do cachorro que, afinal, é um cachorro. Existe, ali, fluidez entre bem e mal em um mesmo personagem, quase como se não fosse uma questão de identificar um conflito moral do próprio sujeito, ou uma personalidade com elementos contrastantes e estranha em cada um deles – e a batalha para que a parte boa prevaleça – mas como se o bem e o mal fossem um aspecto fundamental da alma humana: agir de acordo com a vontade, quase instintivamente. Ininteligível para um ocidental que não se espere um julgamento moral de um personagem por seus atos, mas que se entenda, ao contrário, que o que ele fez é o âmago dele próprio e de sua existência. Em outras palavras,  não se pode julgar o vento por derrubar uma casa. Ou; O mar engole cidades inteiras sem ser mal, apenas sendo mar. Só que o vento nem o mar são seres humanos, e nenhum ser humano é vento ou mar. Só mesmo toneladas de literatura zen budista para se enfiar no loop mental de uma obra assim. Mas quem sabe? Muitas versões trazidas para o lado de cá do mundo foram adaptadas para que fosse criado algo mais palatável ao ocidente.

totoro

Algumas vezes a cultura japonesa me traz a sensação de continuidade repetitiva e eterna, sem início, sem meio e sem fim. Um amigo comentou: “Como fazer uma história, então? Sem redenção? Sem catarse?”.  Esse também já não é o padrão japonês moderno de pensar, já que os ocidentalizamos muito bem. Qualquer história de desenho japonês, hoje, segue o padrão básico de qualquer aventura clássica ocidental. Os personagens passam pelos mesmos problemas, dilemas, confusões e, sim, alguns poucos desenhos japoneses modernos já contemplam até a providência, de vez em quando – embora esse conceito seja absurdo para um japonês tradicional.

Então, dizem que Miyazaki  e a Ghibli são a Disney japonesa. Bom, Walt Disney já havia morrido há quase 30 anos quando lançaram O Rei Leão, uma das melhores histórias já contadas. Quem traçou a comparação esqueceu de notar que a obra da Disney chega bem próxima da essência do pensamento ocidental, e se aproxima do ser humano, de suas batalhas, de Cristo, de uma maneira formidável. Não consigo observar qualquer possibilidade de Miyazaki ter emulado ou reinventado uma história parecida. Os conceitos de herança e dever que estão presentes em O Rei Leão, embora não o resumam, dificilmente seriam entendidos por uma mente japonesa pré-guerra, e nada têm a ver com qualquer tipo de materialismo ou moralismo oriental.

Mas, ao mesmo tempo, Miyazaki nos mostra o belo. E, por isso, eu assisto Miyazaki com muita alegria. Eu poderia assistir Miyazaki em japonês, sem entender uma só palavra – até porque esse é o jeito correto. É o jeito de se assistir uma representação – uma experiência estética, abstrata, e uma narrativa do tipo que, como disse meu amigo, Frederico: “não consegue descrever a si própria se não nos próprios termos”, e continuou: “Então, o cara fica ali, naquele sonho vazio”.

Para os que se lembram desse filme, ver A Viagem de Chihiro é como ver Little Nemo: adventures in slumberland. Animação belíssima, fantástica, e que você não se lembra exatamente do que se trata.

Inline
Inline