Animais estranhos e (secretarias) onde habitam

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FOTO GABRIELA BILO/ ESTADAO

O burguês tem um jeito todo especial de ser. Compadecido pela derrota de seus inimigos, torna-se o amigo número um dos detratores de seu modo de ser. Quem, a despeito de seus próprios valores, se mete a bom moço para agradar seus acusadores e, talvez, levar uma vida política lotada de aplausos de sanguessugas, não terá os aplausos de ninguém. Quem, para ser amado, joga no lixo a demanda de quem o elegeu, não será amado pelos novos amigos e, certamente, deixará de ser amado pelos antigos.

Após duas semanas como prefeito eleito, Doria elogiou Haddad: “Ele foi meu adversário, mas é um homem de bem. Ele é maior e melhor do que o partido a que pertence”, disse o novo prefeito. Em um processo de transição, é aceitável que forças antagônicas se cumprimentem para que o processo ocorra de uma forma tranquila. Mas Doria irá parar por aí? Não. Resolveu criar um conselho superior formado por ex-prefeitos:

 

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Nós vamos criar um Conselho Superior da cidade. Para este conselho superior eu convidei todos os prefeitos que ainda estão em vida. Essas pessoas, com a experiência que têm, o prefeito que ainda está em mandato, e aqueles que já cumpriram o seu mandato, serão convidadas a ajudar a cidade

 

Quer dizer que Doria vai escutar Haddad e Erundina? O projeto para São Paulo escolhido pela população nas eleições foi o de Haddad ou o de Doria? Vai entender…

Depois, ficamos sabendo que Soninha Francine seria a nova secretária de assistência e desenvolvimento social de Doria. André Sturn, que para os padrões artísticos nacionais não é nada maluco, será secretário de cultura. Beltrame, o ex-secretário de segurança pública do RJ, será uma espécie de conselheiro no novo governo.

Soninha é aquela que sugeriu “sintetizar o princípio ativo da maconha para ministrá-lo de maneira controlada” a usuários de crack como uma forma de tratamento da dependência. Soninha, em entrevista, também levanta uma questão super importante sobre os mendigos da cidade: “Por que não admitir um acampamento decente, como se fosse um camping, com chuveiro, regras, espaço de convivência. Não são refugiados? Se oferecermos um acampamento decente para refugiados, contemplaremos duas necessidades básicas: privacidade e convivência. O albergue não tem uma coisa nem outra. Em um camping, você pode ter uma área de convivência, área de refeições, área de preparo para refeições, um lugar para ficar tocando um violão”.

É um mar de ideias.

 

Vai ficar legal esse camping.
Vai ficar legal esse camping.

 

Entendemos que a pasta de Soninha tem pouca importância, mas a queridinha da esquerda paulista vai fazer de tudo para dar destaque à secretaria. Nada mais perigoso que um socialista engajado. Esperamos que Doria esteja fazendo tudo isso apenas como jogo político. Mas que o prefeito saiba desde já que ele não pode arregimentar revolucionários. Não é algo necessariamente condenável; ele simplesmente não conseguirá mantê-los ao seu lado.

André Sturn tem a seu favor algumas boas realizações, principalmente como diretor-executivo do MIS (Museu da Imagem e do Som), que dispõe de recursos da lei Rouanet . É eficiente. Ainda assim, é defensor de forte incentivo estatal à cultura. Segundo O Estadão, nos bastidores da transição de governo, Maria do Rosário, atual secretária de Cultura, comemora a escolha de André Sturn. Ficamos preocupados quando a escolha de um secretário da área cultural  é comemorada por Maria do Rosário. Muito preocupados.

Beltrame é velho conhecido do brasileiro e até popular no Rio. Criador das UPPs no Rio, contra as quais não temos nada a falar (não somos especialistas), não parecia pender para este ou aquele lado no espectro político, mas acredita em bobagens da esquerda, como o desarmamento. Apesar disso, é necessário fazer justiça. Beltrame disse algo importante, em 2015: “Realmente nós temos uma regência que busca a ressocialização, ou seja, a readaptação do custodiado à sociedade, na sociedade, mas que não tem dado muito certo já que a reincidência é muito grande”. Todo o cuidado é pouco.

Há algo de estranho nas escolhas de Doria.

Para agradar a claque artística, que morria de medo de perder suas regalias, Michel Temer resolveu recriar o Ministério da Cultura. Pois bem. Agora, seis meses depois, tem seu governo abalado por denúncia de seu ministro da cultura. Achamos ótimo. A ironia é maravilhosa.

De tempos em tempos, as palavras de Rumsfeld voltam a ganhar importância: a fraqueza é provocativa.  Tudo que a esquerda quer de Doria é uma simples demonstração de fraqueza, principalmente antes do início de seu mandato.

Apoiamos a candidatura de João Doria e esperamos que ele faça uma boa gestão.

 

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