Trump e a queda das bolsas? Por favor…

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Por uma ironia do destino, eu, que não sou um ás da matemática, acabei me formando em uma faculdade brasileira de administração de empresas que se preocupou em ensinar finanças. Ensinar finanças é difícil: requer bons professores que não deram apenas uma lida rápida na matéria um dia antes de ensiná-la a seus alunos. Ensinar finanças requer, no mínimo, que o professor tenha alguma familiariadade com uma HP-12C, a famosa calculadora financeira da Hewlett Packard.

Imagino que, se mal há o ensino de finanças empresariais nas faculdades de administração brasileiras, é de se esperar que não exista qualquer menção a isso nas faculdades de jornalismo do reino da Banânia (Brasil).

Entro no google, hoje, e, como de costume, digito “Trump” para ler a asneira do dia. O mais comum foi:

 

BOLSAS CAEM APÓS DECRETO DE TRUMP

 

Lembro de um professor meu ter muita ojeriza da famosa análise técnica no mercado de capitais. Segundo ele, era uma bobagem de reputação comparável à de uma cartomante. Ele, um homem da análise fundamentalista, achava que a análise de gráficos para investimentos rápidos era a cereja do bolo em um mundo de besteiras especulativas. Não tenho opinião sobre isso, apesar de tender a estar ao lado dele. Mas o que quero dizer com isso? Quero dizer que a mídia está fazendo exatamente o que meu professor acusava os analistas técnicos de fazerem: ilações sobre o mercado financeiro com base em nada. O problema? Bombardeios de reportagens sensacionalistas.

Quais os fatores que influenciaram a queda das bolsas após uma sequência de altas? Questões macroeconômicas? Risco? Eu não sei. O fato é que ninguém da mídia brasileira sabe. Relacionar a queda das bolsas às políticas de Trump é, na melhor das hipósteses, amadorismo. Pode ser, sim, que um ato do presidente dos Estados Unidos influencie especulações, mas a mensagem dos jornais não é tão literal quanto parece. “Bolsa”, no jornalismo brasileiro, é o equivalente a “economia”. Compreende? Para o leigo, quando William Bonner abre a boca para falar que houve “queda geral das bolsas” após a “restrição à entrada de imigrantes” feita por Trump, nos EUA, ele está dizendo, na verdade, o seguinte: a economia desmorona com Trump na presidência. Há uma troca eficiente de palavras e de seus significados. “Bolsa” vira “economia” e “Trump” vira sinônimo de caos – Trump causa quedas na bolsa. Se amanhã as bolsas voltarem a subir, pode ter certeza de que não será por culpa de Trump. Só isso já prova que a análise das relações de causalidade em nossa mídia é fajuta.

Para saber, por exemplo, se as empresas que compõem uma economia estão realmente pondo o pé no freio em relação a investimentos e se elas estão reticentes quanto aos planos de Trump, seria necessário analisar a contabilidade de cada uma delas, as demonstrações financeiras e alguns fatores de risco. Para saber se houve queda de valor real seria necessário trazer ao valor presente anos de projeções financeiras, além de calcular o custo total do aumento do risco. Em resumo, nenhum jornal ou rede de televisão se prestou a consultar analistas financeiros que pudessem dar uma opinião zelosa, abalizada, da situação.

Um investidor descuidado ou mal representado em um dos milhares de filmes sobre o mercado financeiro poderia ver a notícia sobre a restrição à entrada de imigrantes nos Estados Unidos e a queda das bolsas e gritar: venda tudo que tenho de Apple!

Mas não funciona assim. Não para quem entende.

Vamos ver o que Robert Albertson, o estrategista-chefe da Sandler O’Neill, um banco de investimento tem a dizer sobre Trump e suas “ordens executivas”.

 

It’s too early to tell

 

Muito cedo para dizer? Provavelmente! Robert completa com: é a primeira vez que vemos uma administração “business-friendly” em muito tempo. A análise tem seu lado de preocupação com uma possível descoordenação, percebida pelo mercado, entre as  propostas apresentadas por Trump. Ainda assim, o analista diz que não é possível dar certezas sobre a situação dos mercados até, pelo menos, o início da primavera, em Março.

O que me fascina é a incapacidade da mídia brasileira de ver um vídeo em destaque no site da Nasdaq, e publicado na conta de youtube da Bloomberg, e fazer uma análise isenta. Esse é o gráfico apresentado no meio da reportagem, um pouco antes de Robert dizer que os CEOs que se colocam abertamente contra a política de restrição à imigração estão sendo politicamente corretos.

S&P500 desde a vitória de Trump.

Esse gráfico seria muito útil a qualquer marqueteiro que quisesse vender a gestão de Trump como algo sensacional, muito superior à gestão anterior. Mas isso seria tão idiota quanto seu contrário: utilizar-se da última queda das bolsas para fingir que há um apocalipse que não aconteceu e que provavelmente não acontecerá. A verdade é que passou muito pouco tempo para que uma análise profunda e honesta seja feita e apresentada ao público.

O decreto de Trump pressionou…

A restrição à imigração por 90 dias de qualquer cidadão dos sete países listados e por 120 dias, para refugiados, está pressionando os valores das empresas para baixo? Por favor, me explique como você chegou a esse cálculo, cara mídia. Eu entendo que flutuações de preços no mercado fiquem à mercê das notícias que vocês espalham mas, por favor, vocês conseguem explicar ao público que tais flutuações não refletem o valor real da empresa e de seus papéis? Que tal tentar?

 

E o risco?

Sobre o risco, vamos buscar em Damodaran, o professor que qualquer analista financeiro já estudou (mais do que gostaria e menos do que deveria) uma resposta e ler sobre o efeito de Trump nos mercados financeiros. Damodaran sabe do que está falando:

There are some who see the seeds of a market meltdown, and believe that it is time to cash out of the market. There are others who argue that not only will markets bounce back but that it is a buying opportunity. Not finding much clarity in these arguments and suspicious of bias on both sides, I decided to open up my crisis survival kit, last in use in August 2015, in the midst of another market meltdown.

Então o price of risk (relação de ganho esperado vs. risco) diminuiu desde a eleição de Trump? Então talvez muitas das vezes os mercados expressem noções enviesadas e tendenciosas ao invés da realidade dos fatos? Sim. A imprevisibilidade de Trump pode, no entanto, piorar os índices de risco? Sim. Mas nada disso é definitivo. Tudo pode mudar.

O problema não é reportar que movimentos nos mercados de capitais promovem quedas nas bolsas, o problema é não explicar o motivo de forma verdadeira. Que seja explicado que uma nova ação política pode movimentar a compra e a venda de ações, mas que isso não é reflexo da saúde financeira das empresas. Se a mídia quer relacionar as obras do executivo com as baixas nas bolsas, que relacione, então, por coerência, essas mesmas obras com as altas que ocorreram desde a vitória de Trump.

Se você curtiu ler a análise de Damodaran, aqui estão disponíveis as aulas dele de valuation.

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