Jornal O Globo cita senador democrata acusado de misoginia para atacar Trump

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Título filha da puta, não é? Estou apenas fazendo o que a mídia brasileira faz. Vamos lá.

Minha tristeza é saber que, nas horas vagas de meu dia, quando resolvo escrever no Politburo, tenho que lidar com a mídia brasileira. Não que eu ache a americana muito melhor, mas na busca pela verdade a ponderação entre diferentes fontes jornalísticas e a confirmação de dados de forma independente é essencial. Somente a mídia americana oferece essa possibilidade.

Hoje, nos jornais do Brasil:

  • Trump é assessorado por ignorantes para se fortalecer.
  • Republicanos temem por saúde mental de Trump, diz senador.
  • Os riscos de Trump.
  • Trump é criticado por discutir crise internacional em restaurante aberto.

O primeiro texto é de Paul Krugman, e o leitor só o lerá no site da Folha de São Paulo se tiver preguiça de ir ao site do New York Times, onde não é necessário fazer um cadastro para ler o mesmo texto. Krugman é o defensor eterno de Obama e da esquerda americana. Seja sua produção acadêmica seja boa ou não (sou incapaz de avaliar), Krugman é considerado um “liberal” (esquerda americana) não só por quem o conhece mas, pasmem, por ele próprio. Mas o que é claramente a opinião de um economista “liberal” (com quem já concordei mais de uma vez) em um jornal dos mais “liberals” dos Estados Unidos se torna, no Brasil, a opinião abalizada de um famoso economista americano – um perfeito apelo à autoridade que nem precisou ser feito abertamente pois, no Brasil, se o sujeito tem nome estrangeiro e um rosto inconfundivelmente judeu (ponto para Krugman), é mais que o suficiente para que sua opinião seja a própria forma escrita da verdade. Pior: transcendemos o apelo à autoridade, já que a obra e as opiniões de Krugman são desconhecidas por aqui. Agora, basta um bom nome judeu e um rosto rosado de gringo.

Leram o texto do economista? O “imploding job approval” ao qual Paul Krugman se refere é a queda da aprovação de Trump de 45% para 40%  em seu primeiro mês de mandato, níveis que o próprio Obama tinha em Outubro de 2011 e Outubro de 2014. Mas Krugman não é de falar mal de Obama, não é? Na mesma época em que a aprovação de Obama estava em baixa, Krugman fazia um artigo inteiro na Rolling Stone defendendo o ex-presidente com um otimismo infantil. Claro, fez mil malabarismos retóricos para explicar a alta reprovação a Obama, na época. O famoso economista não chegou a citar o fato de que Obama começou sua presidência com 69% de aprovação.

O Krugman usual é melhor que o Krugman de seu último texto, traduzido pela Folha. O artigo do dia 13 de Fevereiro de 2017 é apenas um punhado de gritinhos histéricos. Chato.

A segunda notícia cita como fonte declarações de  Al Franken, senador americano e  (veja você…) “liberal”. O texto ainda cita como fonte para diagnosticar Trump como louco a terapeuta Sherry Amatenstein, que diz:

“A comunidade terapeuta tem debatido o que fazer sobre Trump desde muito antes de ele ganhar a eleição. Durante a campanha, li artigos de renomados analistas diagnosticando Trump, enfatizando com alarme suas tendências narcisistas extremas” .

Diagnosticar trump por suas aparições na TV me parece amadorismo. Mas quem sou eu? Eu não me formei por Harvard ou Yale, não é? Mas da próxima vez que você achar que deve ir ao terapeuta, economize seu precioso tempo: envie vários DVDs com gravações de sua atuação no trabalho e em debates. Com certeza é o suficiente para um diagnóstico.

Voltando.

Al Franken é um democrata e, por isso, queridinho da mídia brasileira formada na USP. O problema não é Franken ser de esquerda. O problema é que nossos jornalistas o utilizam como fonte sensata para suas críticas a Trump mas não lembram de citar seu belíssimo artigo para a Playboy. Eu não sou um moralista; o artigo é besta mesmo, e cheio de sacanagem descontextualizada. Eu acho uma grande bobagem achincalhar o homem por conta de um texto idiota, mas Franken foi criticado por vários políticos democratas e republicanos por seu artigo supostamente misógino. Eu não achei misógino…achei idiota mesmo. Vou, então, fazer uma chamada igual à de O Globo: O Globo cita senador democrata acusado de misoginia para atacar Trump. Aqui e aqui estão as fontes.

Próximo!

“Os riscos de Trump”. O texto já começa com “Como visiting scholar na Universidade de Columbia de setembro a dezembro de 2016, pude acompanhar de perto o processo eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca”. Espere! Se ele é “visitting scholar” então ele deve ser o conhecedor máximo da política americana. Vamos ver. O jornalista segue: “Participei de dois debates com experts em política, e as constatações foram de que até então Trump tinha ido longe demais”. Ok. Não achei o artigo ruim. Não achei o artigo bom. Achei dispensável. Não há uma conclusão interessante. Não entendi bem quais são os tais “Riscos de Trump”.

Por fim, “Trump é criticado por discutir crise internacional em restaurante aberto”. A porcaria da notícia é tão ruim que no meio do texto o jornalista informa que Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, disse que Trump e Abe não analisaram documentos sigilosos no pátio do clube onde estavam e que o presidente foi informado sobre a Coreia do Norte em local seguro da propriedade. Afinal, as críticas foram sensatas ou não? O correto, nesse caso, é inserir a palavra “supostamente” antes da palavra “discutir”, já que a própria Folha não sabe se Trump fez ou não o que se tornou alvo de críticas por parte dos democratas.

No dia 05 de Abril de 2009, a Coreia do Norte lançou um míssil de longo alcance. O presidente Obama estava em Praga reunido com  Václav Klaus, então presidente da República Checa. Digamos que eles estivessem tomando café da manhã em um típico mercado de rua em Praga (coisa de político). Seria culpa de Obama receber um rápido briefing de seus assessores, no meio da rua, sobre o ocorrido e discutir brevemente as opções no local? Nem eu, que não gosto de Obama, acusaria o sujeito de ser negligente por não controlar o que ele não pode controlar.

 

 

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